quinta-feira, fevereiro 21, 2013

A Última Aula

Compartilho e ofereço aos meus alunos e colegas de trabalho o poema do meu professor poeta de coração Vermelho, Henrique Beltrão. nada traduz melhor meu sentimento do  que este belo poema.

A minha vida é toda pautada
na palavra e na interação com o outro.

Quantos cursos, quantas aulas
assim começaram ou se encerraram!
tantas citações e provérbios
e poemas copiei na lousa,
coloquei nas provas e exercícios! Tantas lições!
O tempo todo eu quis aprender
o que eu estive ensinando...
O Tempo, aliás, é mesmo o maior mestre:
o eterno habita o instante.
É vital colher cada instante.
fazer toda aula como se fosse a última...
Fazer tudo assim, como a última vez,
com o Amor de quem se sabe passageiro.

Muitos mestres e mensagens voltam à baila
em meu peito de poeta professor.
vejo a sala de aula a me acolher amiga.
Olho minhas alunas e meus alunos
com ternura e serenidade.
Sei que eles irão além desta vivência
e guardo deles
as mais delicadas e intensas lembranças.
Alegro-me em recordar que também vai inscrita uma parte de mim neles,
porque somos todos Um.

Tenho aprendido com eles
a ser aprendiz para sempre.
tenho visto e sentido como é belo cada um de nós:
que milagre cada ser humano
em sua aprendizagem e imperfeição!
Infinita caminhada conjunta
tecemos em nosso dia-a-dia...

Aprendi que sou pouco e pequeno.
Aprendi também
que o que eu tenho de extraordinário
é ser filho de Deus,
herdeiro da Luz,
como todos os meus iguais.
Entendi que amar se aprende amando
e que o verdadeiro Amor a si e aos outros
é dádiva atemporal.

Entro em sala para esta ultima aula.
Vejo meus companheiros e companheiras
de  viagem.
procuro as palavras mais poéticas
 e percebo que o silêncio traz
sem alvoroço nem engano
a mensagem maior, a da Voz Interior.
Não sou eu  que deixarei o derradeiro conselho.

Esta é a hora humilde e altruísta de sair de cena.
mas posso lhes falar do que sinto e penso,
de como tenho aprendido a viver bem
e morrer um pouco a todo momento.
Quero lhes dizer que houve
outros alunos e outras alunas
que amei e ainda amo.
Vejo neles vocês e sinto em vocês a presença deles.
livros.

Vim me despedir dizendo
que no coração vocês ficam.
Para além dos nossos nomes e papéis,
algo maior nos une. Isso me conforta.

A vida é um milagre. A morte é uma benção
para desfrutarmos do milagre.
A morte nos grita: Viva! Viva bem.

O segredo não está nos livros.
Os Iluminados não vivem por nós nossa vida
O maior mistério é que não há mistério algum.
E esse não haver é o que há envolto na magia
que a gente cria.

Olho os rostos todos ao meu redor.
Sinto-me acolhido.
Encaro vocês como meus pares.
E preciso dizer bem alto
que sou muito grato a todos
com quem tenho convivido.
E a Deus, sobretudo. Em tudo e em todos.
Como quer que O compreendam.

Vou dizer a que vim.
Sim, estou aqui para dar a última aula,
São dadas as aulas, já perceberam, eu sei.
São dadas porque ninguém compra nem vende
este tesouro
que é a interação, flor do humano convívio.

Eu creio que vimos ao mundo aprender
e que aprendemos a metade nos conhecendo
e outra metade com os outros,
eu que faço versos, eu que amo
meus Amigos e minhas Amigas,
eu que nem sei como concluir esse poema,
eu quero deixar tudo continuar seu caminho,
o texto, a aula, cada um de vocês.

Espero encontrá-los em paz, amor, fé e saúde.
Espero que as adversidades fortaleçam a todos.
E que, a exemplo do bambu,
saibamos mudar sempre
e ser flexíveis na ventania.

Eu vivo no colo do Tempo.
No mais, amante da palavra,
escuto falar
o silêncio...

Henrique Beltrão.

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